quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Embora tenha havido povoamento de ilha para ilha, principalmente no grupo central, de ilhas muito próximas, o secular isolamento ilhéu justifica esta variedade. Recordemos que a primeira experiência de abrangência politica e administrativa de todas as ilhas, depois da descentralização das capitanias dos donatários, data só dos tempos pombalinos, com a criação do cargo de capitão-general dos Açores. Mesmo no meu tempo, viajar de ilha para ilha era um dispêndio que só os privilegiados se podiam permitir. Mais pitoresca mas impressionantemente, lembro-me de que conheci no vale das Sete Cidades uma mulher já idosa que não conhecia a cidade de Ponta Delgada, a cerca de vinte quilómetros de distância.Mas, nestas condições, como explicar o indiscutível fundo comum da cultura e identidade açorianas? Começando por falar da cozinha, o meu leit motif, não só os pratos típicos locais se enxertam numa óbvia matriz comum, como há muitos pratos que são usados, com ligeiras variantes, em todas as ilhas. Dou como exemplo as morcelas, ricas de especiarias e inconfundíveis com as do continente, o polvo guisado com vinho de cheiro, os torresmos de porco, os vários estufados de porco ou vaca com fígado e miudezas, as variantes de carne assada tipificadas pela conhecida alcatra da Terceira, os chicharros de salsa verde, as receitas do Espírito Santo, o peixe recheado, vários pratos de lapas, que são, entre muitos outros, pratos desconhecidos da cozinha continental e, embora com variantes, comuns a todas as ilhas açorianas. Uma hipótese para a justificação dessa matriz comum poderia ser a de que a sociedade portuguesa, na era de quatrocentos e quinhentos, fosse mais uniforme do que hoje e que, por consequência, as diversas origens do povoamento não obstassem a um fundo comum mais marcado do que na actualidade. Pode-se argumentar a favor dela, no plano linguístico, com o arcaísmo comum de muitas expressões vocabulares de todas as ilhas açorianas (e também do Brasil) ou com o antigo domínio do uso do gerúndio, ainda hoje corrente nos Açores, enquanto que cá divergiu entre o norte e o sul. Mas, mesmo neste plano, a grande diversidade das pronúncias açorianas, provavelmente ancestral, joga contra esta hipótese. Anote-se, a propósito, que a maioria dos continentais identifica "a" pronúncia açoriana com a de S. Miguel, desconhecendo que elas vão dessa pronúncia carregada e inconfundível à típica pronúncia cantada da Terceira e à quase continental pronúncia faialense. Mesmo na minha ilha, eu costumava distinguir as pronúncias de freguesia para freguesia.Parece-me que aquela hipótese da uniformidade ancestral não resiste à lógica. Em tempos antigos, com origens e factores diversos de povoamento, a diversidade é que devia ser a regra, não a uniformidade. Só nos tempos modernos, com a facilidade de comunicações e a maior troca de informação, e até com a centralização da administração do Estado e a confluência das populações para os grandes centros, é que começou a avultar a osmose social e das culturas.

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